A busca por uma vacina contra o HIV é um dos grandes desafios da ciência há décadas. Apesar dos avanços da ciência, ainda não existem vacinas para HIV aprovadas para uso em larga escala.
A boa notícia é que, mesmo sem uma vacina, a prevenção do HIV evoluiu muito, com estratégias eficazes que ajudam a reduzir o risco de infecção e ampliam as opções de cuidado.
Nos últimos dias, um medicamento chamado lenacapavir passou a aparecer com frequência nas notícias, o que levantou dúvidas comuns, como: “Isso é uma vacina?” ou “O que muda na prevenção do HIV?”.
Neste conteúdo, vamos explicar tudo de forma simples: o que é HIV, como funciona a prevenção hoje, o que são PrEP e PEP, e qual é o papel do lenacapavir nesse cenário. Confira!
Existe vacina para o HIV?
Atualmente, não existe vacina aprovada para prevenir o HIV. Pesquisas continuam sendo realizadas em vários países, mas até agora nenhuma vacina conseguiu oferecer proteção duradoura e segura para uso em larga escala.
Parte da confusão acontece porque surgiram novas formas de prevenção, incluindo medicamentos que podem ser aplicados por injeção subcutânea. Isso leva muitas pessoas a acreditarem que se trata de uma vacina, mas é importante esclarecer: o fato de um medicamento ser injetável não significa que ele seja uma vacina.
As vacinas funcionam estimulando o sistema imunológico a produzir anticorpos e criar uma memória de defesa contra um vírus. Já os medicamentos preventivos contra o HIV, mesmo quando aplicados por injeção, não estimulam o sistema imunológico. Eles atuam enquanto estão presentes no organismo, impedindo que o vírus consiga se instalar caso ocorra uma exposição.
Por isso, essas estratégias são classificadas como profilaxia pré-exposição (PrEP), e não como vacina. Para que funcionem corretamente, é fundamental o uso adequado e o acompanhamento por serviços de saúde.
Como funcionava a prevenção até então?
Mesmo sem uma vacina, a prevenção do HIV já contava com formas eficazes e amplamente disponíveis no Brasil. Essas estratégias continuam sendo essenciais e fazem parte da chamada prevenção combinada, que é a base do cuidado em saúde sexual.
A prevenção combinada parte de uma ideia simples: nenhuma forma de prevenção funciona sozinha em todas as situações. Cada pessoa tem uma rotina, um contexto e um momento de vida diferente.
Por isso, existem várias estratégias que podem ser usadas juntas ou separadamente, conforme a necessidade.
Prevenção combinada
A prevenção combinada reúne diferentes ações para reduzir o risco de infecção pelo HIV. Essas ações se organizam em três grupos principais:
- Estratégias biomédicas: incluem o uso de preservativos, testagem regular para HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (IST), tratamento antirretroviral para quem vive com HIV, além da PrEP e da PEP.
- Estratégias comportamentais: envolvem informação, orientação, aconselhamento, incentivo ao uso de preservativos e à testagem regular.
- Estratégias estruturais: buscam reduzir barreiras de acesso à saúde e combater o estigma, a discriminação e as desigualdades que aumentam o risco de infecção.
O objetivo é oferecer diferentes caminhos de proteção, permitindo que cada pessoa escolha as opções mais adequadas à sua realidade, sempre com apoio dos serviços de saúde.
O que é PrEP e como ela funciona?
A Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) é uma das principais estratégias de prevenção do HIV. Ela é indicada para pessoas que não vivem com o vírus, mas que estão em maior risco de infecção.
A PrEP utiliza medicamentos que impedem que o HIV consiga infectar o organismo caso haja contato com o vírus. No Brasil, ela pode ser usada de duas formas:
- PrEP diária, com uso contínuo do medicamento;
- PrEP sob demanda, utilizada em situações específicas e indicada apenas para alguns grupos, sempre com orientação de um profissional.
Quem utiliza PrEP realiza acompanhamento regular de saúde, com exames para HIV e outras IST. Isso ajuda no diagnóstico precoce, no cuidado contínuo e na redução da transmissão.
O que é PEP e quando ela é indicada?
A Profilaxia Pós-Exposição (PEP) é uma forma de prevenção de urgência. Ela deve ser usada quando ocorre uma situação de risco, como relação sexual sem camisinha, rompimento do preservativo, violência sexual ou acidente com material biológico.
A PEP precisa ser iniciada o mais rápido possível, de preferência nas primeiras horas após a exposição, e no máximo em até 72 horas. O tratamento dura 28 dias e é acompanhado por profissionais de saúde.
No Brasil, a PEP é oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e faz parte da prevenção combinada.
O que é o lenacapavir e por que ele ganhou destaque
O lenacapavir é um medicamento antirretroviral usado para prevenir a infecção pelo HIV. Ele faz parte da estratégia chamada profilaxia pré-exposição (PrEP), indicada para pessoas que não vivem com o vírus, mas estão em maior risco de contato.
O que fez o lenacapavir ganhar tanta atenção foi o seu formato inovador de uso. Enquanto a PrEP mais conhecida exige a tomada de comprimidos todos os dias, o lenacapavir pode ser aplicado por injeção subcutânea apenas duas vezes por ano.
Na prática, isso significa menos doses ao longo do ano, menos risco de esquecimento e mais facilidade para manter a prevenção de forma contínua.
Outro ponto decisivo foi a alta eficácia comprovada em estudos clínicos. Dados publicados em 2024 no The New England Journal of Medicine mostraram que o medicamento apresentou eficácia geral de 100% na prevenção do HIV-1, o tipo mais comum do vírus.
Vale esclarecer um ponto importante: no Brasil, mulheres cisgênero não utilizam a PrEP sob demanda pelo SUS, porque essa modalidade mostrou menor eficácia para a proteção das mucosas vaginais, e o estrogênio pode reduzir ainda mais essa proteção.
Nos estudos com lenacapavir, no entanto, nenhuma das mais de duas mil mulheres cisgênero que receberam o medicamento contraiu HIV, o que reforçou seu potencial como ferramenta de prevenção.
Esses resultados chamaram a atenção de autoridades de saúde em todo o mundo. Em julho de 2025, a Organização Mundial da Saúde passou a recomendar o lenacapavir como uma opção adicional de PrEP, classificando-o como a melhor alternativa disponível até hoje após uma vacina, que ainda não existe.
Uso do lenacapavir no Brasil
No Brasil, o lenacapavir foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em janeiro de 2026 para prevenção do HIV. Ele é indicado para adultos e adolescentes a partir de 12 anos, com peso mínimo de 35 kg, que estejam em situação de risco para adquirir o HIV.
Antes de iniciar o uso, é obrigatória a realização de teste com resultado negativo para HIV, além do acompanhamento regular em serviços de saúde.
É importante destacar que a aprovação pela Anvisa é um passo fundamental, mas não significa que o medicamento esteja automaticamente disponível para toda a população.
Ainda são necessárias outras etapas, como a definição do preço máximo pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) e a avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec).
Somente após essas análises será possível definir se e como o lenacapavir poderá ser incorporado ao Sistema Único de Saúde, ampliando o acesso à prevenção. Até lá, seguem sendo fundamentais as estratégias já disponíveis, como o uso de preservativos, a PrEP oral, a PEP, a testagem regular e o acompanhamento em saúde.
Como o lenacapavir age no organismo
De forma simples, o lenacapavir impede que o HIV consiga se multiplicar dentro do corpo.
Quando o vírus entra no organismo, ele precisa passar por várias etapas para infectar as células e se reproduzir. O lenacapavir age bloqueando uma estrutura essencial do HIV, fazendo com que o vírus não consiga avançar nesse processo.
Isso significa que, mesmo que haja contato com o HIV, o vírus encontra barreiras para se estabelecer enquanto o medicamento estiver ativo no organismo. Como o lenacapavir permanece no corpo por um período prolongado, ele oferece proteção contínua, desde que seja usado corretamente.
Mas atenção: assim como outras formas de PrEP, o uso do lenacapavir exige acompanhamento em serviços de saúde, com testagem regular para HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis. Ele não substitui outras medidas de prevenção, mas amplia as opções dentro da prevenção combinada.
Por fim, é importante reforçar que, caso a infecção pelo HIV já tenha ocorrido, não há motivo para pânico. O tratamento para HIV é uma parte fundamental do cuidado em saúde e está amplamente disponível no Brasil.
Quando iniciado de forma precoce e seguido corretamente, o tratamento permite que a pessoa viva com qualidade de vida, mantenha a carga viral indetectável e não transmita o vírus para outras pessoas.
Agora que você já entendeu como funciona essa novidade na prevenção, confira também nosso conteúdo e saiba qual é a diferença entre HIV e aids!