No episódio 21 do MDS Cast, a Dra. Gabriela do Val, médica especialista em neurodivergência, Leyla Rocha, enfermeira de Gestão de Saúde na MDS Brasil, e Carolina Franchi, assistente social de Gestão de Saúde na MDS Brasil, conversam sobre um tema cada vez mais presente na sociedade: a neurodivergência.
Ao longo do episódio, as especialistas abordam como essas diferenças se manifestam no dia a dia, os impactos na vida pessoal, escolar e profissional e, principalmente, a importância de promover ambientes mais inclusivos e preparados.
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O que é neurodivergência?
Neurodivergência é quando o funcionamento do cérebro de uma pessoa é diferente do que costuma ser mais comum na sociedade. Isso pode influenciar a forma de aprender, se comunicar, se concentrar e até de se relacionar com outras pessoas no dia a dia.
Essas diferenças não são, por si só, um problema. Elas fazem parte da diversidade humana.
Em muitos casos, essas condições também podem ser consideradas deficiências ocultas, ou seja, não são visíveis à primeira vista, mas impactam o dia a dia da pessoa. Principalmente porque muitos ambientes, como escola e trabalho, são pensados para um padrão único de comportamento.
Por isso, pessoas neurodivergentes podem precisar de adaptações para se desenvolver com mais conforto e autonomia.
Diferença entre neurodiversidade e neurodivergência
Esses termos são parecidos e costumam gerar dúvidas, mas, de modo geral:
- Neurodiversidade – é o conceito que reconhece que existem várias formas de funcionamento do cérebro. Ou seja, todas as pessoas fazem parte da neurodiversidade.
- Neurodivergente – é quem tem um funcionamento diferente do que é mais comum ou esperado.
Já quando as pessoas apresentam um funcionamento dentro desse padrão mais frequente, ela é conhecida como neurotípica.
Conheça as principais neurodivergências
Existem diferentes formas de neurodivergência, e cada pessoa pode apresentar características únicas. A seguir, você confere algumas das neurodivergências mais conhecidas.
Transtorno do Espectro Autista (TEA)
O Transtorno do Espectro Autista é uma condição do neurodesenvolvimento que impacta principalmente a comunicação, a interação social e o comportamento. Entre as características mais comuns estão:
- dificuldade em compreender regras sociais implícitas;
- comunicação mais literal ou dificuldade em expressar sentimentos;
- interesses específicos e intensos;
- necessidade de rotina e previsibilidade;
- sensibilidade a estímulos como sons, luzes ou texturas;
- seletividade alimentar.
O TEA é considerado um espectro porque existe uma grande variação entre os casos. Algumas pessoas têm autonomia total, enquanto outras precisam de mais apoio no dia a dia. Por isso, não se fala em graus, mas sim em níveis de suporte.
O diagnóstico precoce faz diferença, pois permite iniciar estímulos que contribuem para o desenvolvimento, a comunicação e a autonomia.
Com a maior divulgação do tema, também é cada vez mais comum que o diagnóstico aconteça na vida adulta. Nesses casos, ele pode ajudar a pessoa a entender melhor suas experiências e dificuldades ao longo da vida. Isso contribui para mais autoconhecimento e pode melhorar a qualidade de vida.
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)
O TDAH é um transtorno neurobiológico que envolve principalmente dificuldades com atenção, impulsividade e, em alguns casos, hiperatividade. Na prática, a pessoa pode apresentar:
- dificuldade em manter o foco em tarefas longas;
- tendência a se distrair com facilidade;
- esquecimento frequente;
- dificuldade em organizar atividades e prazos;
- impulsividade nas falas e decisões.
Na infância, isso pode afetar o desempenho escolar e as relações sociais. Na vida adulta, pode impactar produtividade, gestão do tempo e rotina profissional.
Apesar disso, muitas pessoas com TDAH desenvolvem habilidades importantes, como pensamento rápido, criatividade e capacidade de lidar com situações dinâmicas.
Dislexia
A dislexia é um transtorno específico de aprendizagem que afeta a leitura e a escrita. Ela está relacionada a dificuldades no processamento da linguagem, o que pode causar:
- leitura mais lenta;
- dificuldade em reconhecer palavras;
- troca ou inversão de letras;
- dificuldade de compreensão de textos.
Essas dificuldades costumam aparecer ainda na fase de alfabetização e podem impactar o desempenho escolar.
É importante destacar que a dislexia não tem relação com falta de esforço ou inteligência. Com acompanhamento adequado, estratégias pedagógicas e apoio emocional, a pessoa pode desenvolver plenamente suas habilidades.
Discalculia
A discalculia é um transtorno de aprendizagem que afeta a compreensão de números e conceitos matemáticos. Entre as dificuldades mais comuns estão:
- dificuldade em entender quantidades e sequências numéricas;
- problemas para realizar cálculos simples;
- dificuldade em interpretar problemas matemáticos;
- confusão com horários, medidas e valores.
Essas dificuldades vão além da matemática escolar e podem impactar situações do dia a dia, como fazer compras ou organizar compromissos. O uso de recursos práticos e estratégias adaptadas pode ajudar muito no desenvolvimento dessas habilidades.
Transtorno Opositor Desafiador
O Transtorno Opositor Desafiador (TOD) é mais comum na infância e se caracteriza por um padrão frequente de comportamento desafiador, irritabilidade e dificuldade em lidar com regras. Alguns sinais incluem:
- resistência constante a orientações;
- comportamento provocativo;
- dificuldade em aceitar limites;
- reações intensas de frustração;
- conflitos frequentes com adultos.
Esses comportamentos não devem ser vistos apenas como “birra” ou falta de disciplina. Eles podem estar relacionados a dificuldades emocionais e precisam de acompanhamento adequado.
O suporte da família, da escola e de profissionais especializados é fundamental para ajudar a criança a desenvolver formas mais saudáveis de lidar com emoções e regras.
Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD)
As altas habilidades ou superdotação também fazem parte da neurodivergência, pois representam um funcionamento diferente do padrão mais comum. Pessoas com esse perfil podem apresentar:
- facilidade para aprender novos conteúdos;
- pensamento rápido e raciocínio avançado;
- grande curiosidade e interesse por temas específicos;
- criatividade elevada;
- capacidade de concentração intensa (hiperfoco).
Apesar dessas habilidades, também podem enfrentar desafios, como:
- tédio em ambientes pouco estimulantes;
- dificuldade de socialização;
- sensibilidade emocional;
- frustração quando não se sentem desafiadas.
Por isso, é importante oferecer estímulos adequados e reconhecer tanto os talentos quanto as necessidades dessa pessoa.
Como é realizado o diagnóstico?
O diagnóstico de uma neurodivergência é feito por profissionais especializados e envolve uma avaliação cuidadosa. Não existe um exame único que confirme essas condições.
O processo é clínico e considera diferentes aspectos do desenvolvimento e do comportamento. De forma geral, o diagnóstico inclui conversas, análise do histórico de desenvolvimento, observação do comportamento em diferentes situações e avaliação de dificuldades e habilidades.
Esse processo pode levar tempo, justamente para garantir uma análise mais precisa e evitar conclusões equivocadas.
Por isso, é importante reforçar: conteúdos da internet podem ajudar a levantar dúvidas, mas não substituem uma avaliação profissional. O autodiagnóstico pode gerar interpretações incorretas e atrasar o acesso ao suporte adequado.
O que é avaliação neuropsicológica?
A avaliação neuropsicológica é um tipo de exame que ajuda a entender como o cérebro está funcionando em diferentes áreas.
Ela é indicada quando existem dúvidas sobre aprendizagem, comportamento, memória ou desempenho no dia a dia. O objetivo é identificar tanto dificuldades quanto habilidades, para orientar o melhor tipo de acompanhamento.
Quais tratamentos existem?
As neurodivergências não têm como objetivo “cura”. O foco do tratamento é oferecer suporte para que a pessoa desenvolva suas habilidades e tenha mais qualidade de vida.
O acompanhamento varia de acordo com cada caso, já que cada pessoa tem necessidades, desafios e potencialidades diferentes. De forma geral, o cuidado pode incluir:
- Psicoterapia – ajuda a trabalhar emoções, comportamento e relações sociais.
- Terapia ocupacional – auxilia no desenvolvimento de autonomia nas atividades do dia a dia.
- Fonoaudiologia – indicada quando há dificuldades de comunicação, linguagem ou aprendizagem.
- Acompanhamento escolar – adaptações no ensino e estratégias que facilitam o aprendizado.
- Uso de medicação – em alguns casos, como no TDAH ou em quadros de ansiedade, podem ser prescritas medicações, mas sempre com orientação médica.
Terapia ABA
A terapia ABA (Análise do Comportamento Aplicada) é uma abordagem bastante utilizada, principalmente no acompanhamento de pessoas com autismo. Ela é baseada na observação do comportamento e no uso de estratégias para estimular habilidades importantes, como comunicação, interação social, autonomia e aprendizado no dia a dia.
A ABA trabalha com reforços positivos, ou seja, incentiva comportamentos desejados de forma estruturada e gradual. Cada plano é individualizado e adaptado às necessidades da pessoa, respeitando seu ritmo de desenvolvimento.
Como apoiar pessoas neurodivergentes no dia a dia?
Mais do que entender o conceito de neurodivergência, é importante colocar o respeito em prática. Cada pessoa tem seu próprio jeito de pensar, aprender e se comunicar. Por isso, não existe uma única forma de apoio. Ainda assim, algumas atitudes fazem diferença:
- Respeite o tempo de cada pessoa – nem todo mundo aprende ou responde no mesmo ritmo. Dar espaço e tempo é essencial.
- Evite julgamentos e comparações – comentários como “é só se esforçar mais” podem gerar frustração e não ajudam no desenvolvimento.
- Adapte o ambiente quando possível – pequenas mudanças, como reduzir barulho, organizar melhor tarefas ou flexibilizar rotinas, podem facilitar muito o dia a dia.
- Seja claro na comunicação – prefira orientações diretas e objetivas. Isso evita dúvidas e torna a interação mais fácil.
- Valorize habilidades e interesses – muitas pessoas neurodivergentes têm talentos específicos. Reconhecer isso fortalece a autoestima.
- Evite termos preconceituosos – expressões como “nem parece” ou “isso é exagero” podem reforçar estigmas e afastar o diálogo.
- Busque informação de qualidade – entender melhor o tema ajuda a lidar com situações do dia a dia de forma mais consciente e acolhedora.
Também é importante lembrar que algumas pessoas podem tentar esconder suas dificuldades para se adaptar. Criar um ambiente seguro, onde elas possam ser quem são, faz toda a diferença.
Apoiar pessoas neurodivergentes não exige grandes mudanças, mas sim atenção, empatia e respeito nas pequenas atitudes do cotidiano.
Para aprofundar essa conversa e entender os diferentes pontos de vista apresentados pelas especialistas, assista ao episódio 21 do MDS Cast no YouTube ou no Spotify.